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sexta-feira, 8 de setembro de 2006

Office na Web? Web como plataforma? Tá louco?

Já falei em outro texto sobre as vantagens de se usar aplicações via Internet. Agora vou pormenorizar um pouco mais sobre algumas objeções que leio por aí relacionadas a isso.

1- É uma volta aos anos do mainframe, com tudo centrado no servidor

Mais ou menos isso. Os dados realmente estarão centralizados no servidor, embora boa parte da aplicação rode no cliente.

Mas eu pergunto: qual o problema desse modelo? Os usuários por acaso são "donos" das aplicações que rodam em seus PCs? Obviamente que não. Eles não programaram estes softwares, apenas instalaram as ferramentas feitas por outros. O modelo de "tudo rodando e sendo gravado no PC" não foi uma "libertação dos usuários", mas sim uma necessidade. O que ocorre é que na época do mainframe não havia computador nas casas das pessoas. Com a vinda dessa mania (e necessidade) do PC, pelo fato de não existir uma Internet comercial, foi necessário que esses micro computadores isolados rodassem tudo, e isso simplesmente se reproduziu nas empresas pelo simples fato de que desta maneira se compatibilizou o modo de usar computadores em casa com o modo de usar computadores no trabalho, embora nas empresas os dados continuem centralizados em servidores do mesmo jeito. Isso nunca mudou.

Agora a vinda da Web 2.0 está apenas possibilitando que esse modelo se reproduza em casa, e as vantagens são as mesmas que se tem no modelo cliente/servidor no trabalho: os dados são acessíveis em qualquer computador que se vá, só que desta vez não confinado ao ambiente de trabalho.

2- E se o provedor de aplicação sair do ar?

Sim, isso é um problema. No entanto as pessoas simplesmente preferirão encarar este problema, pois verão vantagens nele. Lembre-se que, como corretamente diz a sabedoria popular, a tecnologia sempre serviu para resolver problemas que antes não existiam. A Web 2.0 nos possibilitará acessar os dados em casa, no trabalho, no celular, no quiosque, etc, sem a necessidade de ficar carregando ou sincronizando memórias portáteis. Ora, isso significa que o "uptime" (tempo em que os dados estão acessíveis) será ampliado para os momentos em que você estiver na rua, na casa de amigos, viajando, etc. A realidade é que na prática, no modelo desktop, você tem "downtime" toda vez que sai de perto do computador aonde seus dados estão gravados, pois ninguém fica realmente sincronizando dados em memory keys o tempo todo, o que é penoso e sempre trás o risco de se possuir uma versão desatualizada nos diferentes lugares aonde os arquivos são editados. No desktop há sempre também o risco de faltar luz, do sistema operacional "dar pau", de uma trilha se tornar defeituosa no HD. E provavelmente a tendência é as conexões ficarem cada vez mais estáveis.

3- E a segurança dos dados, estando eles em um servidor remoto?

Ora, hoje os nossos computadores estão todos ligados na Internet o tempo todo, inclusive nas empresas, e todos sabemos que existem virus, backdoors, worms, e tantas outras maneiras de um hacker ter acesso aos seus dados. Mesmo não sendo um hacker hoje em dia conseguir acesso a todos os arquivos de vários computadores é tão fácil que ele ocorre até "sem querer". Eu por exemplo acesso Internet através de uma daquelas conexões prediais, compartilhada através de uma rede local no meu prédio residencial. Basta usar o Windows Explorer para acessar o drive C: inteiro dos vários moradores que acionam o compartilhamento do mesmo e provavelmente nem se dão conta disso. É impressionante, mas acontece aos montes. E para quem não tem Internet predial existe um programinha chamado Hamachi -que não é uma ferramenta hacker- que simula uma rede local na Internet. Da mesma forma sempre tem alguém compartilhando drives inteiros que se tornam expostos para o deleite de qualquer curioso desocupado de plantão. Daí pode-se concluir que talvez haverá até mais segurança com os dados centralizados em um provedor compromissado com seus clientes ao invés de estarem distribuídos em máquinas de usuários leigos. Além disso cada vez mais gente faz compras pela Internet e usa Gmail como email principal, inclusive para transportar documentos para outros computadores. Então penso que para a maioria das aplicações corriqueiras já corremos o risco e isso não fará tanta diferença. Para os dados realmente mais sensíveis pode ser necessário um tratamento diferente, mas duvido que isso impedirá as pessoas de preferirem hospedar seus dados em servidores remotos para a maioria dos casos, dadas as vantagens que eu já expliquei em outros textos de minha autoria.

4- A Web é uma péssima plataforma, sujeita a erros de Javascript, acionamento acidental do botão "back", e etc

Diziam o mesmo do Windows, quando ele foi lançado para o grande público em sua versão 3.0, com o Macintosh na época servindo apenas para uma "elite" (até hoje) que usava desktop publishing e programas gráficos. As aplicações "for Windows" eram várias vezes mais lentas que equivalentes no DOS, tinha muito bug (como tem até hoje), e o ambiente de janelas era "aberto demais" em relação ao ambiente caractere, o que permitia ao usuário por exemplo mover pastas inteiras clicando e arrastando o mouse, algo que no DOS era mais "difícil" e menos sujeito a acidentes, já que o usuário teria que digitar uma enorme linha de comando. Quem continuou batendo nessa tecla ficou para trás na história da informática. Evolução tecnológica sempre implica em necessidade de mais equipamento para resolver a lentidão, novos costumes do usuário para resolver o problema dos acidentes, e tolerância aos bugs que inevitavelmente surgem, apesar da estabilidade já alcançada pela "versão anterior".

5- As aplicações Web são fracas c
aradas a equivalentes desktop

Seria mais correto afirmar que as aplicações Web ainda não estão maduras, assim como o Windows de 1985, bem antes da versão 3.0, ainda não estava nem de longe maduro para ser utilizado como substituto do DOS, e nem a interface gráfica quando foi realmente inventada nos anos 70 (não pela Apple, mas pela Xerox). Estamos falando de futuro, e não de presente. Por outro lado, aplicações desktop não tem as mesmas facilidades para compartilhamento de documentos. Já há processadores de texto e planilhas online por exemplo que permitem a edição simultânea de um mesmo documento por vários usuários de maneira extremamente simples.

6- Codificação AJAX é difícil de escrever, o que resulta em software mais bugado.

Vale a mesma resposta que para a questão anterior. Concordo plenamente que as tecnologias para desenvolvimento de aplicações Web ainda não estão suficientemente maduras. Mas era assim também nos primórdios da computação desktop. Era necessário usar muito mais "força bruta", codificar em linguagens como Assembly e C, para se obter boas aplicações. Idem na plataforma Windows, que só veio a ter uma linguagem de alto nível capaz de fazer aplicações comerciais com bancos de dados na versão 3.0 do Visual Basic, e mesmo assim de maneira mais rudimentar do que é possível hoje. No mundo AJAX já temos exemplos como o Morfik, que "compila" linguagens de alto nível para Javascript, tornando o desenvolvimento de aplicações Web extremamente semelhante ao de aplicações desktop.

7- Você será obrigado a pagar pelas aplicações, já que não haverão meios para se pirateá-las.

Tirando a falta de mérito da questão, já que pirataria não deveria ser considerada uma "vantagem", não deixa de ser verdadeira essa "preocupação" de quem pirateia. Com as aplicações hospedadas no servidor da empresa que as produz, que garantia haverá de que o pirata poderá obtê-las gratuitamente? De fato não há garantias, no entanto é bem verdade que a maioria das aplicações Web disponíveis atualmente são gratuitas, e muitas delas, como o Gmail, tendendo a continuarem assim para sempre. No entanto aparentemente este é o caminho que o software desktop não-gratuito também parece estar começando a seguir. Um exemplo é o tal do Windows Genuine Advantage, que está impedindo as atualizações online do Windows e fazendo com que a pirataria, mesmo de software desktop, já não compense mais como antes. Então esse impedimento via Internet para a pirataria é um caminho sem volta, só que o software gratuito também parece ser um caminho sem volta já há muito tempo, e o mundo online até facilita este modelo gratuito, pois possibilita que o ganho dos produtores de software venham de outras fontes como por exemplo os banners de propagandas.

Enfim, para mim, que tenho décadas de experiência com informática, essas objeções não são novidades. Elas sempre surgem de maneira semelhante quando algo novo aparece no mercado. Mas tenho notado que nos EUA as opiniões já estão mudando, embora eu tenha tirado essas questões de comentários que li sobre o assunto "Web Office" publicado na ZDNet por volta de abril deste ano. Engraçado a diferença que poucos meses já fizeram na cabeça da maioria das pessoas por lá. Dois artigos na Slashdot, um mais antigo e outro mais recente, mostram uma maioria de pessoas com opiniões totalmente opostas em suas respectivas épocas. Antes a maioria tecendo objeções sobre as aplicações Web, e agora a maioria falando a favor.

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